terça-feira, 17 de maio de 2011

Vingar ou Amar? Sofrer o dano ou dar o troco?


“Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça” (Romanos 12:19-20).

                Muitas vezes, quando feridos ou prejudicados por alguém, somos, naturalmente, envolvidos por um profundo desejo de justiça, que na realidade, lá no íntimo, consiste em retaliação, ou seja, em um desejo de vingança.
                Justiça ou vingança? Sem dúvidas, o que separa a justiça da vingança é uma linha extremamente tênue e muitas vezes as confundimos.
                No geral, conceitualmente, a justiça objetiva a preservação da vida e sempre visa o bem, mesmo quando ela se manifesta em forma de punição. Trata-se de uma “noção ética fundamental, sendo que por meio dela as relações humanas são regulamentadas”.
                Todavia, a vingança consiste na retaliação contra uma pessoa ou grupo em resposta a algo que foi percebido ou sentido como prejudicial, na essência, sempre visa o mal e expressa desejos destrutivos. A vingança não busca acordos ou reconciliações!
                Vingar ou Amar? Sofrer o dano ou dar o troco? Vindicar ou Vingar? Qual deve ser a postura do crente em Jesus Cristo? O que a Bíblia ensina? É nesse contexto que se encontra a presente recomendação do apóstolo Paulo.
                Mais uma vez, Paulo ensina algo fácil de entender, mas difícil de praticar. Novamente ele usa o tema do amor no seio da comunidade cristã, como a virtude que deve permear todo o comportamento dos crentes e, por conseguinte, evitar o desejo natural de vingança, de dar o troco, de retaliação.
                Segundo Calvino, o desejo por vingança jorra da mesma fonte que a soberba e o orgulho, a saber: “um amor desordenado voltado para si mesmo e um orgulho inerente que nos leva a uma excessiva indulgência para com nossos próprios erros, enquanto que nos revelamos intolerantes para com os erros alheios. Visto, pois, que esta enfermidade cria em quase todos um desejo frenético por vingança, mesmo quando sofrem as mais leves injúrias, o apóstolo nos ordena, aqui, a não cultivarmos o espírito de vingança, mesmo quando somos dolorosamente feridos, mas que deixemos a vingança com o Senhor”
                “Não vos vingueis a vós mesmos, amados”. O que Paulo está requerendo é que a despeito da nossa inclinação natural, em nenhuma hipótese devemos buscar a vingança, ela sempre nos fará mal. O prazer da vingança sempre é efêmero e desaparece logo após o “acerto de contas”, dando lugar a destruição, ao vazio existencial, e muitas vezes ao sentimento de culpa e remorso pela dor causada intencionalmente no outro. Por outro lado, o apóstolo ensina que o caminho da reconciliação, do perdão, da tolerância e do diálogo pessoal franco, aberto e direto com o outro, sempre é a melhor e mais abençoada opção. Afinal, esse foi o exemplo do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo!
                A admoestação enfática é: deixemos a vingança nas mãos de Deus! A prerrogativa da vingança é exclusiva de Deus. “[...] mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence à vingança”, significa “deixar com Deus a autoridade de julgar”. No entender de Calvino, “aqueles que planejam a vingança privam Deus desta autoridade, [...] porquanto Deus quis reservar este ofício exclusivamente para si”.
                De fato, a justiça e a vingança pertencem a Deus e, desde os tempos de Moisés esta mensagem é colocada de maneira bem clara, senão vejamos:A mim me pertence a vingança, a retribuição, a seu tempo, quando resvalar o seu pé; porque o dia da sua calamidade está próximo, e o seu destino se apressa em chegar. Porque o Senhor fará justiça ao seu povo e se compadecerá dos seus servos, quando vir que o seu poder se foi, e já não há nem escravo nem livre” (Deuteronômio 32:35-36; outros textos como:Is 34:8; 35:4; 61:1-3) e, ora, nós conhecemos aquele que disse: A mim pertence a vingança; eu retribuirei. E outra vez: O Senhor julgará o seu povo. Horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hebreus 10:30-31).
                Inspirado por Deus, em sua sabedoria Salomão disse: “não digas: vingar-me-ei do mal; espera pelo Senhor e ele te livrará” (Pv20:22) e admoesta aos crentes a não se alegrarem quando virem o fracasso dos seus inimigos (Pv 24:17-21).
                François (Escritor Francês e Duque de La Rochefoucauld, 1613-1680) disse: “A vingança procede sempre da fraqueza da alma que não é capaz de suportar as injúrias”. Nenhum crente tem o direito de fazer justiça com as próprias mãos!
                “Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber”. Na realidade Paulo repete a admoestação do verso 17 reforçando a idéia de que devemos amar a todos, inclusive, aqueles que nutem inimizade por nós, se necessário, socorrendo-os em suas necessidades básicas.
                “Porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça”. Parafraseando R C Sproul, quando respondemos ao mal com bem, expomos os nossos inimigos à ira de Deus e, se eles persistirem em nos tratar de maneira perversa enquanto lhos pagamos com o bem o mal que nos fazem, aumentamos a culpa deles diante de Deus, isto é amontoar brasas vivas sobre suas cabeças.
                Devemos resistir ao desejo de vingar e aprender a amar, inclusive, os que se declaram nossos inimigos.

Pr. Marcos Serjo
Pastor Sênior da IPB Central de Cuiabá

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